March 19, 2017

ontem

vendo você vir de cor verde
penso:
Júpiter e Mercúrio estão dentro desse mel

o fim, desse jeito

esse jeito
vendo você
menos forte

escuto restos de nossos
pés e dentes

trópicos, Boby, trópicos


November 18, 2016

Estou procurando um poema. Encontro a frase outro ouro. Parece clichê. Tem uma panela de pressão trabalhando a essa hora da madrugada. Feijão com chá de camomila e alecrim. Não parece clichê. Uma alegria. Uma gostosura. Acho temperos. As luzes estão acesas e o cheiro é bom. Próximo sábado tem festa de Axé. Axé. Quero uma blusa azul cor de água. Ô Iemanjá quando vem rompendo águas. Falei com Cosme e Damião. Quero talvez. Todo texto meu é um abrir parênteses ao lado de outro parênteses. Não é uma caixa dentro de uma caixa. Não é uma caixa fora de uma caixa. É uma caixa foradentro. Eu penso no outro e outro parêntese e formulo (alquimista) ouro. Os alquimistas virão. Estão chegando. Os alquimistas. Sobreveio esse som. Ô Iemanjá. Vem. Rompendo águas. Falarei para Pedro do meu olhar marítimo. Veio esse poema-crônica sei lá. Sei tão pouco e talvezes. Olho meu olho de água encontro doce e salgada. Axé.

November 09, 2016

átomos

Um filigrana de poeira entope minha garganta. Meu pescoço está excitado. Arrotarei quinquilharias de cosmos para um novo ano acontecer. A previsão fatídica de um futuro não esvaziará a contramão da força do riso de uma garganta entupida por um filigrana de poeira. Meus camaradas e minhas amigas são bem maiores. Sempre serão. Somos. Estamos átomos apesar de atônitos. Deixemos o medo e a esperança de lado. Vamos de mãos dadas.

November 08, 2016

escrever de olhos fechados faz isso e iscas

Esquecer a falta.
Lembrar:  a falta é produção de falta.
O vazio é importante, embora importante seja uma palavra vazia.
Lembrar do vazio.
Esquecer e lembrar: brincadeira para sobreviver.
Não deixe o esquecimento aborrecer o fluxo da têmpora.
Há muitas partes além das laterais.
Uma mesa é lateral e literal.
Um pássaro também o é.
É é muita coisa/passagem.
Um pássaro também é ferida.
Tiro a cicatriz do miolo do círculo do entulho do entorno.
Tiro, não. Tento. Não consigo. Consigo. Vou conseguir. Desisto. Consigo outra vez. Outra vez. Eu não aguento mais isso. Não acordarei você quando você acordar. Não tem mais acordos ou previstos. Não tem mais nem jeito. Tem jeito. Tem dente. Se tem dente tem jeito. Morder a margarina e ir. Vai. Vou. Atiro. Suspiro (palavra bonita). Aguar (palavra de encher a boca). Telefone (palavra feia). Guardar (só lembro de Antônio Cícero). Fuga (palavra boa). Engolir (palavra forte). Masclar (palavra resistente). Resistir (palavra infindável). Ouço o som da motosserra. Um barco é feito pelo vizinho. Ele está nu fazendo o barco. O barco. Barco (palavra de vento e esperança). Haverá fome depois de agora? E dentes? Haverá dentes depois da fome?

escrever um chá

Faltava isso. Sentar aqui e olhar a manhã com o sol nas minhas costas. Mas o dia está nublado – fica o sobreaviso. Pretendo escrever um poema. Mato uma barata. Meu olho míope a confundiu, na passagem para o banheiro, com uma folha. Se existiu uma folha, ela estava ao lado do quarto de dormir. Quarto bom. Lá tem semi-luz (desejo retocado de meus planos-diários). Ter uma semi-luz, peço. Fazer um chá. Fiz um chá. Escrever. Não importa. Escrever o dia. O dia é implacável com as contas da casa, com a casa, com a roupa suja da casa, com as contas da casa, com as contas da casa, com a panela suja da casa e os talheres sujos na pia. O dia é implacável com as ondas. Mas eu tenho duas laranjas olhando para mim. Isso me conforta? Sim-sim-se. Eu diria sim e faço o seguinte gesto: minha mão esquerda coça a minha mão esquerda. É tão difícil entender. Choremos, portanto. Mas com calma. Nem sempre chorar tudo é o lance-escape. Ok. Eu também digo – não chore com parcimônia, Saulo. Chore com a sujeira da casa e na limpeza fugaz do banheiro. Chore apenas e peça chocolate? Rio nessa intertextualidade suja. Amanhã tem aniversário de Léo. Isso é tanto. Comemorar o coração é lança e laço. Eu já fiz muitas coisas para um dia tão recentemente começado: li um poema inédito da Ana Martins Marques, lembrei de domingoeudeitadonarede, li um poema inédito de um escritor que está fudendo (gostoso?) com outro, matei uma barata, pus os panos de chão para lavar, planejei lavar os banheiros, enviei burocracias de e-mails (uma lástima), falei depois de muito tempo com Dene (um riso), li metade de um poema inédito.  Estou com preguiça de tirar o excesso desse texto e do cabelo. Peço desculpas pela sobra e cachos. Borbulha na boca a excreção de.

August 22, 2016

mais uma promessa (no final do texto)

Essa é a arvore pequena. Árvore de amigo. Árvore com pontas-pedras. Árvore de verdes lugares. A raiz é também de pedra. Ao lado da parede amarela você fica bem. Essa árvore não vai crescer. Nem tudo que acontece, cresce. Nem tudo que permanece, está estanque. Nem toda noite se escreve. Nem todo mar tem fundo com barítonos. Nem todos mares fazem rima. Nem todo remo acontece só. Quase sempre em pé é melhor correndo slow. Pega na pena esquecida do outro texto de ontem. Pena colada na ponta dos paus, circulando na noite de igual alegre, de igual-igual, de tesão e silêncio. Pernas. É bom estar aqui. O sonho de ontem ficou difícil de sair dos meus pés descalços. Estou só. Falta muito para continuar  acompanhado. Climatizo os infinitos provisórios. Estou aqui. Esse papo é sobre qualquer papo: árvore, papel e antenas do ar. Quais as rimas internas? Lar – mar – mar – lar – ar. Vou estocar vento e pente.

November 16, 2014

Tem uma estante cheia de cds. Um sofá emprestado. Um ventilador. Uma prateleira cheia de livros, naturalmente. Livros com muitos labirintos e paralelos. Paralamas e um computador deitado no chão. Toco no chão para ter cuidado. Dentro do computador disfarço poesias esquecidas. Dentro do esquecimento, uma vontade de nuvem e passagem molha as plantas. Tem um nome, uma data, um reencontro, uma analogia de cafuné e cutucadas e hortelã. Eu tenho você desde aquele dia. Desde aquele dia, o adiamento de nossas nucas e bibliotecas foi para esse futuro não mais futuro. O futuro tirou a calcinha, os óculos e o bigode. Ele está agora. Ficamos cronos e mil listrados até todos entardeceres. Numa roupa devir eu guardo seu corpo e rezo. Sua escápula esquerda está numa caixa. Com ela faço bolhas de sabão e cheiros de alfazema. Perfumo o nosso suor. Próximo ao farol de plantações grito por você e rio. Refaço meu pedido de amizade. E é de amizade esse lacrimejo no seu colo estonteante e no meu olho pequeno.

Procedimento de meu penúltimo afogamento

Uma câmara líquida por onde os peixes se amontoaram, ali: um barulho enfeita
Cama e macieiras em pleno 
mar
Um amigo beberá suco de carambola. Procedimento com vodca
Em pleno
mar
Pressentimento-êxtase em pleno
mar

Espero outras-coisas-outros-ostras-distâncias

No
mar eu
(fugitivos e malandros-piratas)

Na invenção dos cuidados fui ondulado e ofegante

Agora, entre mergulhos e melaços, melodias corais e melodias
A linha de fronteira (concreto e abstrato)
(eu nunca havia percebido)

A linha de fronteira
está nadando dentro de mim não sinto mais meus pés de pato estou em pleno
mar
mar
mar
mar
mar
a
f
o
g
a
d

o

November 10, 2014

3 Músicas Para Cláudia

Ontem, no ônibus: hoje eu joguei tanta coisa fora, vi o meu passado passar por mim, cartas e fotografias, gente que foi embora, a casa fica bem melhor assim.
Paralamas do sucesso, lembra?
Essa música lembra disposição e uma manhã de sábado. Naquela manhã, arrumei meu quarto. Naquela tarde de sábado, depois do quarto arrumado e eu 15 kilos mais leve, tomei um banho de mar.
Mas a história foi ontem e não tem mar. 
Mas a história é hoje e tem mar.
Mais – o futuro e o mar?
A música é outra.
Cartas e fotografias e o mar.
Plantas e fotografias e o mar.
Casa limpa.
Cante a música.
Ontem eu conheci Cláudia.
Cláudia está acima do peso.
Cláudia não usa maquiagem.
Claudia morou em Itapuã.
Cláudia morou na Boca o Rio.
Cláudia sempre morou em Salvador.
Cláudia nunca foi a Itapetinga.
Eu nunca ouvi falar de Itapetinga.
Itapetinga significa pedra branca.
Em Itapetinga Aécio ganhou.
Claudia, eu acredito, Cláudia faz parte de 70%. 70%, você sabe.
A música é outra.
Meio melancólica.
Quando eu esbocei Cláudia, ela era melancólica, tinha uma voz pausada, uma voz de
alguém que sonhou e foi ontem um futuro meio cansado.
A vida como uma promessa.
A escrita como promessa.
Eu prometo escrever Cláudia e fazer um outro meio diferente de cansaço.
A música é melancólica.
(Alguém com uma voz bonita canta. Canta baixinho ninando o nada).
O rosto da atriz
Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Ai Cláudia, é tão bonita essa canção.
Ai, que voz linda.
Ai, canta de novo Cláudia.
Cláudia, quem é Beatriz?
Beatriz sobreviveu e vai nascer em dezembro.
Você esqueceu dizer o nome do seu filho.
Ai, vai, senta lá, Cláudia.
Vamos falar uma bombagenzinha numa bobonierizinha.
Doces, Cláudia, muitos doces e café.
Cartografia do desejo: bolo e café.
Vamos sair desse regime louco.
Você viu, Cláudia?
Você lembra da Cláudia?
Claudia foi uma revista publicada pela Editora Abril.
destinada ao público feminino
em circulação desde outubro de 1961.
O primeiro número
com tiragem de 150 mil exemplares
inovava em relação a outras revistas femininas do Brasil 
por trazer uma proposta 
feminista.
Sob o título 
Não, isto não tolero!
aconselhava a leitora a reagir
com firmeza, mas com doçura
aos defeitos do marido.
A revista Claudia possuiu, como capa, artistas e famosas.
Lista completa de capas da revista 
Adriana Zelinsky (janeiro de 1988 e dezembro de 1989)
Alinne Moraes (abril de 2009)
Amy Miller (março de 1988)
Ana Beatriz ( maio de 1989)
Ana Hickmann (setembro de 2008 e dezembro de 2009)
Andrea Cesar ( junho e novembro de 1989)
Angélica (dezembro de 1981, agosto de 2003, setembro de 2006, outubro de 2007, maio de 2009, outubro de 2010, outubro de 2011 e abril de 2013)
Bruna Lombardi (abril de 1988)
Camila Pitanga (abril de 2010)
Carla Rose Silva Ranucci (dezembro de 1988)
Carolina Ferraz (Junho de 2012)
Cissa Guimarães (Junho de 2011)
Claudia Abreu (Maio de 2012)
Claudia Leitte (outubro de 2009, novembro de 2010 e fevereiro de 2012)
Claudia Raia (agosto de 2008, setembro de 2010 e dezembro de 2011)
Cláudia Tolendhall (julho de 1988)
Cléo Pires (julho de 2008)
Cristiane Torloni (março de 1988 e Setembro de 2011)
Debora Bloch (julho de 2009)
Deborah Secco (fevereiro de 2005)
Eliana(Setembro de 1994 e Janeiro de 2006)
Fátima Bernardes (novembro de 2008, maio de 2011 e julho de 2012)
Fernanda Barbosa (julho de 2003)
Fernanda Lima (fevereiro de 2009)
Flávia Alessandra (novembro de 2009 e novembro de 2012)
Glória Pires (agosto de 1988, agosto de 2005, fevereiro de 2011 e outubro de 2012)
Giovanna Antonelli (maio de 2008 e abril de 2012)
Giselle Bündchen (abril de 2008, março de 2009, maio de 2010, abril de 2011 e setembro de 2012)
Grazi Massafera (dezembro de 2006, setembro de 2007, dezembro de 2008, janeiro de 2010, março de 2011 e março de 2012)
Heidi ( maio de 1990)
Ildi Silva ( maio de 2001)
Ivete Sangalo (janeiro de 2008, fevereiro de 2010 e novembro de 2011)
Juliana Paes (outubro de 2008)
Julie Adamson (setembro de 1983)
Karina Gomes (julho de 1989)
Larissa Maciel (dezembro 2010)
Letícia Spiller (fevereiro de 2008)
Letícia Sabatella (março de 2008)
Lília Cabral (março de 2010)
Luiza Brunet (agosto de 2010)
Malu Mader ( junho de 1988 e julho de 2010)
Maria Fernanda Cândido (janeiro de 2012)
Mariana Ximenes (junho de 2008 e junho de 2010)
Mia Simone ( janeiro de 1989)
Paola Oliveira (janeiro de 2009 e julho de 2011)
Patrícia Barros (outubro de 1989)
Patrícia Machado (setembro de 1988)
Patrícia Poeta (agosto de 2009, janeiro de 2011 e dezembro de 2012)
Patrícia Silveira ( agosto de 2000)
Patrícia Teixeira (novembro de 1989)
Renata Ceribelli (agosto de 2011)
Renata Mesquita (outubro de 1993)
Rinália (maio de 1993)
Rita Lobo (janeiro de 1990; junho de 1993)
Sâmia Maluf
Sherry Holmes (agosto e setembro de 1989)
Taís Araújo (setembro de 2009 e agosto de 2012)
Tânia Khalill (junho de 2009)
Valla ( abril de 1987)
Vanessa ( outubro de 1988)
Vera Fischer (maio de 1988)
Vera Hartfield (abril de 1989)
Waline (fevereiro de 1989)
Wanessa Camargo (maio de 2007}
Xuxa (outubro de 2005)
Ai, que cansaço de ser Cláudia, cama, mesa e banho.
Então, sei lá.
Ai, vai, senta lá, Cláudia. Outra vez.
Ok.
I've Got a Feeling
Yes!
I've got a feeling, a feeling deep inside
Oh, yeah, oh, yeah (that's right)
I've got a feeling, a feeling I can't hide
Oh, no! Oh, no! Oh, no
Yeah. Yeah! I've got a feeling, yeah!
Oh, please, believe me, I'd hate to miss the train
Oh, yeah, yeah, oh, yeah
And if you leave me I won't be late again
Oh, no, oh, no, oh, no
Yeah, yeah, I've got a feeling, yeah
I got a feeling
All these years, I've been wandering around
Wondering how come nobody told me
All that I was looking for was somebody
Who looked like you
I've got a feeling that keeps me on my toes
Oh, yeah, oh, yeah
I've got a feeling, I think that everybody knows
Oh, yeah, oh, yeah, oh, yeah
Yeah. Yeah! I've got a feeling, yeah!
Agora todos juntos-juntinhos
Ev'rybody had a hard year
Ev'rybody had a good time
Ev'rybody had a wet dream
Ev'rybody saw the sunshine
Oh, yeah, oh, yeah, oh, yeah
Ev'rybody had a good year
Ev'rybody let their hair down
Ev'rybody pulled their socks up (yeah)
Ev'rybody put their foot down 
Oh, yeah! Yeah! Wohoo! (Oh, my soul, it's so hard)
Oh, sim, oh, sim (está certo)

Traduz, please, traduz!
Mas eu não sei english.
Eu Tenho Um Sentimento
Eu tenho um sentimento, um sentimento aqui dentro
Oh, sim, oh, sim (está certo)
Eu tenho um sentimento, um sentimento que eu não posso esconder
Oh, não, oh, não, oh não
Sim, sim, estou tendo esse sentimento, sim
Eu tenho um sentimento.
Todos esses anos, eu tenho andado por aí
Se perguntando como é que ninguém veio me dizer
Que toda a minha procura se resumia a alguém
Que se parecesse com você
Eu tenho um sentimento que me mantém com os pés no chão
Oh, sim, oh, sim
Eu tenho um sentimento, eu acho que todo mundo já sabe
Oh, sim, oh sim, oh, sim
Sim! Sim! Eu tenho um sentimento, sim!
Todo mundo teve um ano difícil
Todo mundo se divertiu bastante
Todo mundo teve um sonho molhado
Todo mundo viu o sol brilhar
Oh, sim, oh, sim, oh, sim
Todo mundo teve um bom ano
Todo mundo deixou o cabelo crescer
Todo mundo arregaçou as mangas (sim)
Todo mundo pôs os pés no chão
Oh, sim! Sim! Wohoo!
(Oh, minha alma, isso é tão difícil)

poesia de amor e viver (em ordem alfabética)

jards macalé
jorge mautner
torquato neto

October 20, 2014

atalho e torno

Leitura de uma memória inscrita hoje.
Uma coleção de estudos para (des)ocupar depois:

Estudos de Serpente, Neurônios e Cartografias.
Estudos de um relance.
Estudos de sinuosidade.
Estudos de trilhas e pernas.
Estudos de aquilo que você acabou de lembrar e esquecer.
Estudos de testes de resistores.
Estudos de pés de patos e de um nadador amador.
Estudos de um amante.
Estudos de pequenas trocas, afetos e carícias.
Estudos de despedidas no canto da ocupação.
Estudos em preto e branco.
Estudos de uma memória. 

Eu perdi grafias, eu enviei uma carta para um amigo, eu risquei a parede da galeria, eu fiz amor com um escafandrista, eu peguei um atalho e tornei, torno aqui no mesmo-diferente atalho.                                                                                   Tornar. Atalhar.

October 15, 2014

aprendiz de gato

antes eu olhava um gato
antes eu mimava um gato
antes eu imitava um gato
antes eu rastro feio e gato