August 25, 2011

cumprimento *



riso 
na borda
do risco compri-
do teu liro

*para Daniel Farias

August 18, 2011

sem titulo

as músicas são tão iguais
o tempo todo
a lost girl quer decifrar a mente dos animais
o tempo todo

as músicas são todas iguais
no figurino de giz e água
as músicas são iguais
as músicas não parecem iguais
as músicas não são iguais
as músicas tão são iguais
as músicas parecem os extras animais
e misteriosas túnicas
minérios pretos e brancos
a menina chupa o diz gelado ali no meio da rua vá
o certo é dançar em ioruba

serviço

Maré de material para satisfazer o dedo. O dedo serve para coçar o olho irritado esquerdo.

sem titulo

Agora não encontro qualquer semelhança entre o tom da minha ressaca moral e as palavras tecladas-ligadas no interior do HD. Não encontrar não significa não existir. Existe sempre um sapo, um sopro, um bafo. Quando acordo. Demora-se para surgir uma história no suéter do travesseiro. Espera sem fim. Esperando o apito da chaleira, do trem, do menino. Espera. Tem melancia gelada. Tem possibilidade de entrar uma grana extra e comprar um guaraná, guarda-roupa e acumular inventários cold cases. A banha fedorenta continua ao lado. Vamos lá. Paciência é quando você pirraça a si mesmo e inventa fazer pipoca no play.  Era para inventar um tom diferente dos macrobióticos floridos. O terceiro preparou a casa. Preparou o dicionário. Escandalizou o vizinho de baixo. Criou um prato feito de abacaxi e gengibre. E a menina MPB cantava desse jeito vão saber de nós dois. O terceiro precisa se concentrar e acordar às 05h02min. Todos os dias. O terceiro era uma farra e agora quase um comportamento perto do elevador, comprometimento de bom dia. O terceiro é uma farsa. É muito diferente de mim. Eu não sei italiano. Não gosto de cara de pau. Eu não tenho uma aventura. Eu não sou goiaba. Eu não tenho bichinho de goiaba. Eu não misturo chuchu com laranja. Eu nem sempre sou curioso. Eu não penso no meu coração. Eu nunca pensei em matar o busto de cera. Eu não gosto de falar de mim. O terceiro não é exatamente o contrário disso e por isso pode parecer mais instigante. Não direi idade/nacionalidade/quantos irmãos o terceiro tem. Ele está em qualquer lugar. Texto abertíssimo. Eu não sei se o terceiro tem mãe. Ele curte jazz ou arriba e metcholate. Não preciso saber. Eu sou uma farsa.

diário de adolescente

Acordou pronto para colocar um sapato mais comportado. O seu quarto anunciava um dia nublado, uma cor discreta, uma covardia bondosa em ir. Levantou e outra vez os movimentos lineares, quase imitados nas manhãs seguidas entre agosto e dezembro, foram ensaiados. Não conseguiu fazer café. Saiu com uma bolacha de sal, quase vencida, na boca e a surpresa de um dia anti-cinza. 40 minutos de atraso. Entrou na sala e tinha uma cadeira ali no extremo da meia lua de alunos dispostos.

Ele parece comigo, mas é bonito. Tem um celular-computador, óculos italiano, jeito do tipo francês-educado-discreto. Talvez ele não use vermelho. Talvez ele não goste de vermelho. Talvez meus óculos vermelhos tenham sido motivo para desistência de suco na cantina ou um love-song-elétrico na balada. Talvez ele não goste de balada. Talvez ele goste de balada com os amigos. Talvez um dos amigos goste de vermelho. Talvez ele ficasse escandalizado se descobrisse como se usa batom. Talvez ele só goste de chocolates amargos. Talvez ele esteja pronto para um amor resfriado e planeje entrar na academia. Talvez ele de repente resolva apagar a tatuagem escrita no pulso direito e desenfeitice medos enquanto as próximas manhãs de segunda-quartas-sextas invetem fôlego e coragem.

Gaguejei de desconcentração, findou-se a assadura das chances, o colapso dos dentes.
 

Os dois desejos

Aprender sem precisar catar feijão. Aprender a ponto de sonhar, pronto para pontas festivas, contos de estação de metrô, possibilidade de uma ponta alucinante, figuração na novela das nove, no filme  passado sempre nas quartas quartas-feiras de Agosto, em horário nobre, depois de vale-a-pena-ver-de-novo. Aprender para compor jazz, encontrar um amor e cheirar o subaco, as costas, a coca. Brincar de ser feliz e não pensar na casa dos 35 anos, em crianças iluminadas, no cachorro, na denge. Ser alongado, possibilidade de tocar as mãos no teto do chão com as pernas esticadas.

Os registros da autopsia

As cadeiras com as mangas caídas sobre o chão e as frases bordadas das falsas valsas virgens do bom cardíaco. Timbres de blackout, fartura de seios brancos, balada do café triste. No gesto não há mais nada para ser decifrado. Repetição desiludida dos restos há trinta e futuro cinco anos. Eu posso ir a pé e devagar e não pretendo cachorros de raça. Você imaginou minha escritura assim. De qual cor pintarei meu quarto? Quando receberei Jeneci pelos Correios? Quando escreverei um conto? Quando repartirei meu cansaço? Quando borrarei os contraltos? Quando a maconha será liberada? Quando as algemas enfeitarão as sombracelhas? Quando estouraremos as bexigas de aniversário? Quando bateremos punheta nas trilhas entupindo os cupins de açúcar?

Fio de ovos nas mãos

Cabeça nos ombros. No aquário. Cabeça esbarrada sob sua camisa. Tudo era feito para engatinhar. Balinha de goma e pornografia. Parafernália e pornografia. Anotou a receita para o camundongo. Vestido e um terno que nunca conseguiu decorar para a ocasião. Preparou água para o chá das cinco. Da manhã. Leu o futuro do dia, o repertório do dia, a roupa do dia, a gelatina de tutifruttidodia. Engatinhar os gatilhos é interpolar os abismos, pensou. Queria terminar com um sorriso perplexo. Uma certa asfixia desdramática na cena. Diga-me em dois dias como terminará o depois. Afogamentos sem travessões. Quais as palavras para alargar no lar da ponta da língua? Embraceable you está altíssimo, naturalmente.